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Fato ou boato: óxidos prejudicam a biologia do solo?
Fato ou boato: óxidos prejudicam a biologia do solo?
13 Ago 2026

Fato ou boato: óxidos prejudicam a biologia do solo?

Entenda o que os dados mostram sobre o uso de óxidos de cálcio e magnésio e seus efeitos nos indicadores da biologia do solo.

Quando se fala no uso de óxidos de cálcio e magnésio na agricultura, uma dúvida pode surgir: por serem materiais de alta reatividade, sua aplicação poderia prejudicar a atividade microbiológica do solo?

A biologia do solo tem papel importante na ciclagem de nutrientes e no funcionamento dos sistemas agrícolas. Por isso, entender como diferentes práticas de manejo interferem nessa atividade é essencial para avaliar seus efeitos de forma mais completa.

Esse é justamente um dos objetivos do Ciência do Solo, projeto da Caltec que busca ampliar o acesso a informações sobre solo, nutrição, manejo da acidez, óxidos agrícolas e outros temas importantes para a agricultura.

Para investigar a relação entre os óxidos e a atividade biológica do solo, a Caltec desenvolveu, junto à Consultoria Agroimpulse, um protocolo de avaliação utilizando a metodologia BIOAS, desenvolvida pela Embrapa.

Neste artigo, você vai entender como o estudo foi realizado e o que os resultados mostram sobre a relação entre a aplicação de óxidos de cálcio e magnésio e a biologia do solo.

Como é possível avaliar a biologia do solo?

Uma análise de solo convencional permite avaliar diferentes características químicas importantes para o manejo. A metodologia BIOAS amplia essa avaliação ao incluir indicadores relacionados à atividade microbiológica.

Para isso, são analisadas enzimas associadas a diferentes processos que acontecem no solo.

No estudo com os óxidos de cálcio e magnésio, foram avaliadas:

fosfatase, relacionada aos processos envolvendo fósforo;

β-glicosidase, associada à ciclagem do carbono;

arilsulfatase, relacionada à ciclagem do enxofre.

A partir desses indicadores, é possível obter índices relacionados à qualidade biológica e química do solo, além da relação entre esses dois componentes.

Como foi realizado o experimento?

O estudo foi conduzido em uma lavoura comercial de cana-de-açúcar, no município de Luiz Antônio (SP), em solo de textura argilosa.

Foram delimitadas unidades experimentais seguindo critérios de repetição, casualização e controle entre os tratamentos.

O produto avaliado foi o OxiFlux O-104, ferticorretivo refinado à base de óxidos de cálcio e magnésio, aplicado em soqueira de cana.

Foram comparados três manejos:

testemunha: sem aplicação;

calcário: aplicação de 1 tonelada por hectare;

OxiFlux O-104: aplicação de 300 kg por hectare.

Essa comparação permitiu observar se a aplicação do óxido provocaria alguma alteração negativa nos indicadores relacionados à biologia do solo.

Para entender melhor por que óxidos e carbonatos apresentam comportamentos diferentes após a aplicação, confira também nosso artigo sobre as diferenças entre óxidos e carbonatos na agricultura.

O que os resultados mostraram?

Nas avaliações realizadas, não foram observadas diferenças estatísticas entre as médias dos tratamentos.

Isso significa que o tratamento com OxiFlux O-104 não apresentou redução estatisticamente significativa nos indicadores avaliados quando comparado tanto ao calcário quanto à área sem aplicação.

Ao observar os resultados ao longo do tempo, também foi identificada uma tendência de aumento do parâmetro avaliado com OxiFlux O-104 em relação ao calcário e à testemunha aos 90 dias após a aplicação. Aos 180 dias, essa tendência também foi observada em comparação ao tratamento com calcário.

É importante diferenciar os dois pontos: houve uma tendência nos valores observados, mas as médias dos tratamentos permaneceram estatisticamente semelhantes.

Então os óxidos prejudicam os microrganismos do solo?

Os resultados do estudo não indicaram efeito negativo da aplicação do óxido de cálcio e magnésio sobre os indicadores avaliados da biologia do solo.

Mesmo o tratamento sem aplicação apresentou índices iguais ou inferiores aos encontrados na área que recebeu OxiFlux O-104.

Dessa forma, dentro das condições avaliadas no experimento, a utilização dos óxidos de cálcio e magnésio não provocou distúrbios negativos na microbiologia do solo.

Esse resultado também reforça um ponto importante: ao analisar qualquer tecnologia utilizada na agricultura, é necessário considerar dose, tipo de solo, cultura e posicionamento adequado do produto.

Por que a alta reatividade dos óxidos gera essa dúvida?

Os óxidos de cálcio e magnésio passam por um processo industrial de calcinação que transforma materiais originalmente carbonatados em óxidos. Essa transformação está diretamente relacionada às características químicas e à reatividade desses materiais.

Se você ainda não conhece esse processo, explicamos todas as etapas no artigo como são feitos os óxidos de cálcio e magnésio utilizados na agricultura.

A alta reatividade, por si só, porém, não é suficiente para concluir que um material prejudica a microbiologia do solo. Para entender seus efeitos, é necessário avaliar o comportamento da tecnologia nas condições reais de utilização.

Qual é a relação entre controle da acidez, nutrição e biologia do solo?

Os óxidos de cálcio e magnésio são utilizados no manejo por sua capacidade de atuar no controle da acidez e fornecer cálcio e magnésio às plantas.

Quando utilizados nas doses adequadas para a cultura e para as condições do solo, esses materiais podem integrar o manejo sem comprometer os indicadores de qualidade biológica avaliados no estudo.

Isso é relevante porque química, nutrição e biologia não funcionam de maneira isolada no solo. As condições encontradas pelas plantas e pelos microrganismos resultam da interação entre esses diferentes componentes.

Por isso, avaliar apenas a alta reatividade de uma fonte não é suficiente para concluir que ela provocará efeitos negativos sobre a microbiologia.

Fato ou boato: óxidos fazem mal à biologia do solo?

Considerando as condições e os tratamentos avaliados neste estudo, é boato afirmar que a aplicação adequada de óxidos de cálcio e magnésio necessariamente prejudica a biologia do solo.

A aplicação de OxiFlux O-104 na dose de 300 kg/ha não apresentou correlação com redução do índice Fertbio quando comparada ao tratamento com calcário ou à testemunha sem aplicação.

Os resultados reforçam a importância de analisar esse tipo de afirmação com base em dados, considerando sempre as condições de uso, a dose recomendada e as características específicas de cada sistema produtivo.

Conclusão

A atividade biológica é parte fundamental do funcionamento do solo e deve ser considerada nas decisões de manejo. Por isso, questionar como diferentes tecnologias interferem nesse componente é necessário.

No experimento realizado em soqueira de cana-de-açúcar, a aplicação de óxidos de cálcio e magnésio não provocou redução nos indicadores de qualidade biológica avaliados quando comparada ao calcário e à área sem aplicação.

Mais do que partir da ideia de que a alta reatividade dos óxidos necessariamente representa um risco à microbiologia, os resultados mostram a importância de avaliar seu comportamento com dados e dentro das condições adequadas de manejo.