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El Niño na agricultura: impactos no solo e nas lavouras
El Niño na agricultura: impactos no solo e nas lavouras
11 Ago 2026

El Niño na agricultura: impactos no solo e nas lavouras

Entenda os impactos do El Niño na agricultura, nas chuvas, na fertilidade do solo e no desenvolvimento das culturas em diferentes regiões.

El Niño: muito além de um fenômeno climático

O El Niño é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, principalmente nas regiões central e leste do oceano.

Ele faz parte do sistema conhecido como ENOS — El Niño–Oscilação Sul — que alterna entre três fases: El Niño, associado ao aquecimento das águas; La Niña, caracterizada pelo resfriamento; e a condição neutra. Esse ciclo ocorre, em média, a cada dois a sete anos e exerce forte influência sobre o clima global, alterando padrões de chuva, temperatura e circulação atmosférica em diferentes regiões do planeta. 

Como o El Niño se forma?

Em condições normais, os ventos alísios sopram de leste para oeste, deslocando as águas mais quentes em direção à Indonésia e à Austrália. Com isso, a costa oeste da América do Sul permanece com águas relativamente mais frias.

Durante o El Niño, esses ventos enfraquecem. Como consequência, parte da água quente retorna para as regiões central e leste do Pacífico, alterando a localização das principais áreas de formação de nuvens.

Essa mudança modifica a circulação atmosférica e interfere na distribuição das chuvas, nos ventos e nas temperaturas em diferentes continentes. É por isso que um fenômeno iniciado no Pacífico pode influenciar o clima do Brasil e de diversas outras regiões do mundo. 

O que muda na atmosfera durante o El Niño?

A atmosfera funciona como um sistema integrado. Quando uma região passa a concentrar mais calor e vapor d'água, outras regiões respondem a essa mudança.

Em condições normais, o ar quente sobe próximo à Indonésia, circula em grandes altitudes, desce sobre o Pacífico oriental e retorna pela superfície. Durante o El Niño, esse padrão enfraquece, modificando também as regiões onde há maior formação de chuva.

Essas alterações ajudam a explicar os impactos do fenômeno sobre a agricultura brasileira.

Quais são os efeitos do El Niño sobre a agricultura no Brasil?

A agricultura é um dos setores mais sensíveis às mudanças nos padrões de precipitação e temperatura provocadas pelo El Niño.

Nas regiões Norte e Nordeste, além da porção norte do Centro-Oeste e do Sudeste, há tendência de redução das chuvas e maior frequência de períodos de estiagem. Esse cenário pode comprometer o desenvolvimento das culturas e a disponibilidade hídrica, aumentando o risco de perdas, principalmente em sistemas de sequeiro.

Na Região Sul, por outro lado, o El Niño costuma estar associado ao aumento dos volumes de precipitação, especialmente durante o inverno e a primavera.

O excesso de umidade também pode trazer consequências negativas para a produção agrícola, dificultando o manejo e favorecendo problemas fitossanitários. 

Impactos sobre os cereais de inverno

Para cereais de inverno cultivados na Região Sul, os períodos mais críticos podem coincidir com os meses de maior volume de chuva, principalmente setembro e outubro.

Nessas condições, culturas como trigo e aveia ficam mais expostas ao excesso hídrico durante fases importantes do ciclo, como:

  • floração;  
  • enchimento de grãos; 
  • maturação.  

Além de afetar o desenvolvimento e a produtividade, a elevada umidade pode favorecer doenças fúngicas, prejudicar a qualidade dos grãos e dificultar o tráfego de máquinas e a realização das operações agrícolas.

Utilizando os dados de produtividade média do trigo e aveia, pertencentes a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), no período de 1996 a 2025, notou-se maior probabilidade de produtividades abaixo da média em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, com valores próximos de 80% para trigo e 60% para aveia. No Paraná, para o trigo, a probabilidade foi de aproximadamente 40% tanto para produtividades próximas quanto abaixo da média. 

E na safra de verão?

Os impactos também variam conforme a região.

No Norte, Nordeste e em partes do Centro-Oeste e Sudeste, a redução das chuvas durante eventos de El Niño pode aumentar a frequência de veranicos, principalmente na primavera e no início do verão.

Esse cenário pode prejudicar:

  • implantação das lavouras; 
  • desenvolvimento inicial da soja e do milho; 
  • produção em sistemas de sequeiro. 

Na Região Sul, o aumento das chuvas pode favorecer a disponibilidade hídrica, mas o excesso de precipitação também pode provocar encharcamento do solo, maior incidência de doenças fúngicas, dificuldades no plantio e nos tratos culturais, além de impactos sobre a qualidade e a colheita.

Os efeitos, porém, não dependem exclusivamente da ocorrência do El Niño. Há também a influência de outros fatores, como a temperatura da superfície do mar nas regiões tropical e subtropical do Oceano Atlântico e a intensidade do fenômeno. 

O que o produtor pode fazer?

Como o clima não pode ser controlado, o foco deve estar no aumento da resiliência do sistema produtivo.

Algumas estratégias válidas são:

  • acompanhar previsões climáticas e boletins sazonais; 
  • ajustar a janela de semeadura quando necessário; 
  • investir em conservação do solo e cobertura vegetal; 
  • melhorar a infiltração e a retenção de água; 
  • realizar manejo adequado da fertilidade; 
  • diversificar cultivares e sistemas produtivos; 
  • monitorar continuamente a lavoura. 

Nenhuma tecnologia elimina os efeitos dos eventos climáticos extremos. Entretanto, práticas que favoreçam a saúde do solo e o equilíbrio do sistema produtivo aumentam a capacidade da lavoura de enfrentar períodos de excesso ou escassez de água.

Como eventos extremos afetam a fertilidade do solo?

A fertilidade do solo depende do equilíbrio entre três componentes principais:

  • fertilidade química; 
  • fertilidade física; 
  • fertilidade biológica. 

Eventos climáticos extremos podem afetar esses três pilares de diferentes maneiras.

Lixiviação de nutrientes

Na Região Sul, o excesso de precipitação pode intensificar a lixiviação.

Quando a chuva ultrapassa a capacidade de retenção do solo, a água se desloca para camadas mais profundas e pode carregar nutrientes solúveis, como:

  • nitrogênio, principalmente na forma de nitrato; 
  • enxofre, na forma de sulfato; 
  • boro;  
  • parte do potássio, especialmente em solos arenosos. 

Com isso, parte desses nutrientes deixa de permanecer disponível na região explorada pelas raízes, reduzindo a eficiência da adubação.

Erosão do solo

Chuvas intensas aumentam o escoamento superficial, especialmente quando o solo está descoberto ou apresenta estrutura inadequada.

A camada superficial concentra parte importante da matéria orgânica, do fósforo, dos micronutrientes e da atividade biológica do solo.

Por isso, eventos erosivos intensos podem comprometer parte do trabalho de construção da fertilidade realizado ao longo dos anos.

Redução da atividade biológica

Os microrganismos dependem de equilíbrio entre água e oxigênio.

Quando o solo permanece saturado por períodos prolongados, a disponibilidade de oxigênio diminui, reduzindo a respiração microbiana, a mineralização da matéria orgânica e a ciclagem de nutrientes.

Isso pode comprometer processos relacionados à disponibilidade de nitrogênio, enxofre e fósforo.

Alterações na matéria orgânica

O excesso de água pode reduzir a decomposição aeróbica da matéria orgânica. Já períodos alternados de chuva intensa e calor podem favorecer perdas de carbono e dificultar a formação de agregados estáveis.

Além disso, processos erosivos removem justamente a camada superficial, que normalmente apresenta maior concentração de carbono. 

Ferticorreção e resiliência do sistema produtivo

Dentro desse cenário, os princípios da Ferticorreção são uma forma de trabalhar diferentes aspectos do solo de maneira integrada.

O foco desse manejo está em cinco pontos principais:

  • Acidez (pH): formulações e práticas voltadas à menor geração de acidez; 
  • Microbiologia: criação de ambiente favorável às interações entre planta e microbiota; 
  • Física do solo: desenvolvimento do sistema radicular e melhoria da estrutura;  
  • Química do solo: disponibilidade de nutrientes na solução do solo; 
  • Matéria orgânica: aumento de massa verde e ciclagem de nutrientes. 


Princípios da Ferticorreção aplicados ao equilíbrio químico, físico e biológico do solo.

 

Conclusão

O El Niño vai muito além de uma alteração na temperatura das águas do Pacífico. Seus efeitos alcançam diferentes regiões do Brasil e podem interferir diretamente no regime de chuvas, na disponibilidade hídrica, na fertilidade do solo e no desenvolvimento das culturas.

Como esses impactos variam conforme a região, a intensidade do fenômeno e as condições locais, o produtor precisa acompanhar as previsões climáticas e adaptar o manejo sempre que necessário.

A construção de sistemas produtivos mais equilibrados, com atenção à fertilidade química, física e biológica do solo, contribui para aumentar a capacidade da lavoura de enfrentar períodos de excesso ou escassez de água.