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O papel das plantas de cobertura na agricultura regenerativa
O papel das plantas de cobertura na agricultura regenerativa
27 Fev 2026

O papel das plantas de cobertura na agricultura regenerativa

Entenda como plantas de cobertura fortalecem a agricultura regenerativa, promovendo ciclagem de nutrientes, proteção do solo e maior eficiência produtiva.

Agricultura regenerativa e conservação do solo

Ao longo das últimas décadas, a intensificação do uso da terra tem sido uma estratégia para garantir produção agrícola ao longo de todo o ano. Em algumas regiões do Brasil, até três safras anuais são realizadas.

No entanto, quando essa intensificação ocorre associada a manejos inadequados — como preparo incorreto do solo, baixa reposição de nutrientes e uso ineficiente de recursos — o resultado pode ser a degradação física, química e biológica do solo, redução da produtividade e menor longevidade econômica da área.

Nesse contexto, a agricultura regenerativa surge como um conjunto de práticas voltadas à recuperação do agroecossistema, promovendo maior resiliência produtiva e conservação dos recursos naturais, com destaque para o solo.

Entre as principais práticas adotadas estão:

  • Sistema de plantio direto
  • Rotação de culturas
  • Incremento de matéria orgânica
  • Curvas de nível e terraços
  • Manejo integrado de pragas e doenças
  • Uso de fertilizantes de maior eficiência
  • Fixação biológica de nitrogênio
  • Plantas de cobertura

O papel das plantas de cobertura na agricultura regenerativa

Na agricultura regenerativa, as plantas de cobertura desempenham papel estratégico no sistema solo–planta–atmosfera.

Quando corretamente inseridas no sistema produtivo, elas promovem:

  • Proteção do solo contra o impacto das chuvas
  • Reciclagem de nutrientes
  • Formação de palhada para a cultura sucessora
  • Estruturação do solo com macro e microporos
  • Estímulo às interações microbiológicas benéficas

Essas espécies podem ser utilizadas em rotação, sucessão ou consórcio, como ocorre nos sistemas de integração lavoura-pecuária (exemplo: milho + braquiária).

Para que os benefícios sejam plenamente alcançados, alguns pontos são fundamentais:

  • Escolha de espécies adaptadas às condições edafoclimáticas
  • Época adequada de plantio
  • Manejo eficiente de plantas daninhas
  • Uso de espécies que auxiliem na quebra do ciclo de doenças
  • Preparo adequado do solo

Ciclagem de nutrientes promovida pelas plantas de cobertura

Um dos principais serviços ecossistêmicos promovidos pelas plantas de cobertura é a ciclagem de nutrientes.

Conforme apresentado no trabalho de Silva (2023), espécies como mucuna-preta, feijão-de-porco, Brachiaria ruziziensis, crotalária e Brachiaria brizantha apresentaram maior acúmulo de nutrientes quando comparadas ao pousio.

 

Os dados indicam:

  • Maior produção de massa seca
  • Maior acúmulo de nitrogênio (N), fósforo (P), potássio (K), cálcio (Ca) e magnésio (Mg)
  • Maior exploração do perfil do solo pelo sistema radicular

Esse comportamento favorece a redistribuição de nutrientes das camadas mais profundas para a superfície, aumentando sua disponibilidade para a cultura sucessora.


Ferticorretivos e plantas de cobertura: integração estratégica

Os ferticorretivos atuam no controle da acidez e na nutrição com cálcio, magnésio e enxofre, promovendo ambiente químico mais favorável ao desenvolvimento radicular.

Devido às suas características físicas e químicas — como maior velocidade de reação e ampla janela de aplicação — podem ser utilizados tanto a lanço quanto em linha de plantio, inclusive associados às plantas de cobertura.

A fertilização dessas espécies não tem como objetivo apenas nutrir a cultura sucessora, mas potencializar:

  • Produção de massa seca
  • Ciclagem de nutrientes
  • Qualidade física e biológica do solo

Considerando incremento de 1 t ha⁻¹ de matéria seca:

Crotalária

  • +19,0 kg ha⁻¹ de N (≈ 42 kg de ureia)
  • +3,87 kg ha⁻¹ de P₂O₅ (≈ 7,45 kg de MAP)
  • +16,7 kg ha⁻¹ de K₂O (≈ 27,8 kg de KCl)

Brachiaria ruziziensis

  • +13,2 kg ha⁻¹ de N (≈ 29,3 kg de ureia)
  • +3,68 kg ha⁻¹ de P₂O₅ (≈ 7,07 kg de MAP)
  • +15,6 kg ha⁻¹ de K₂O (≈ 26,0 kg de KCl)

Esses números demonstram que o incremento de massa seca impacta diretamente na eficiência do sistema e na otimização do uso de fertilizantes minerais.


Relação entre cálcio, magnésio e incremento de biomassa

O acúmulo de matéria seca está diretamente associado a:

  • Sistema radicular mais robusto
  • Maior absorção de água
  • Melhor aproveitamento de nutrientes
  • Maior aporte de cálcio
  • Melhor eficiência fotossintética e transporte de açúcares, favorecido pelo magnésio

Assim, o manejo nutricional equilibrado é determinante para que as plantas de cobertura expressem seu potencial regenerativo.


Conclusão

O uso eficiente de plantas de cobertura, aliado ao manejo nutricional adequado, promove benefícios tanto para essas culturas quanto para a cultura sucessora.

Além de contribuir para a ciclagem de nutrientes, essa integração fortalece os atributos químicos, físicos e biológicos do solo, consolidando a agricultura regenerativa como estratégia técnica e produtiva para sistemas agrícolas sustentáveis.

 

Referências
ILVA, José Douglas Bezerra da. Ciclagem de nutrientes por plantas de cobertura de solo em sistemas intensivo de produção de silagem. 2023. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Agronomia) — Campus de Engenharias e Ciências Agrárias, Universidade Federal de Alagoas, Rio Largo, 2023. Disponível em: https://www.repositorio.ufal.br/bitstream/123456789/15570/1/Ciclagem%20de%20nutrientes%20por%20plantas%20de%20cobertura%20de%20solo%20em%20sistemas%20intensivo%20de%20produção%20de%20silagem.pdf.